sábado, 16 de outubro de 2010

Diálogos #14

Já disseram certa vez, em algum livro ou em roteiros de cinema, que: “a coragem não é a ausência do medo, mas sim, a presença do medo e mesmo assim seguir adiante” – algo assim. Pois bem... Medo? Coragem? – Parecem sensações tão singelas, não? Aparentemente, o instinto humano interligou essas duas percepções de realidade, ou, desesperadamente, uma terceira emoção talvez tenha feito isso – que é o mais provável. Decaindo as probabilidades é passível de se observar, portanto, a tríade: ‘medo, coragem, defesa’ como sendo a mais profícua relação (partindo, inicialmente, do ‘jargão popular’). A partir desse ponto, definida a terceira das palavras, contextualmente, se tornam expropriadas tanto o medo quanto a coragem – que são sentimentos. Mas e quanto à ‘defesa’, o que ela é? Como pode ser definida? Onde se encaixa? Defesa, como se sabe sem ensinamento, é um instinto; Uma ‘cor primata’ e, não ‘primária’ - como o medo ou a coragem. A defesa funciona sem nenhum tipo de mecanismo de ativação – ela sempre está ativada -, e é ela quem dá alarde a outras sensações nos casos em que devidas circunstâncias pautam-se emergenciais (*Nenhuma ou pouquíssimas novidades até agora, não?*). Só que o mais interessante ainda não foi dito: a defesa é a única ‘sócia’ do conjunto da ‘tríade’ que tem um inimigo voraz! Enquanto o medo e a coragem são seus próprios antônimos e inimigos (em tese), a defesa tem que enfrentar todos os dias, radicalmente, a pior das ‘vilãs’: ELA MESMA! Em alguns casos, como se sabe, o círculo chega a ser tão vicioso que (clinicamente falando) geram-se doenças auto-imunes: A defesa, exageradamente, ataca ‘a proteção’ do próprio organismo, deixando-o debilitado. Mas, voltando o contexto ao cotidiano e a curiosidade que é estar protegido e ameaçado (agora pensando filosoficamente) por algo que, substantivamente, nos procedeu à evolução, fica a verdadeira resposta nietzschiana (sem alusões ou abusões): “O que não nos mata nos deixa mais fortes.”
Defesa (¿)

Durante a vida’:

Arlindo se alimentou mal, fumou, bebeu, tomou sol forte, levou picada de cobra (duas vezes), tomou facada (duas vezes), tiro da bala de revólver calibre trinta e dois (uma vez só) e viveu até ‘a beirada dos oitenta’. Euclides se alimentou saudavelmente, nunca fumou, bebeu apenas socialmente, poucas cobras encarou pelas parreiras, com faca se cortou apenas na cozinha, nunca pegou numa arma e viveu até ‘a beirada dos sessenta’.Mas tanto Arlindo quanto Euclides eram bons e honestos. A pós-vida havia reservado o mesmo lugar para os dois.

Pós-Mortis’:

Curiosa e casualmente, Arlindo e Euclides já se conheciam em vida (esse negócio de cidade pequena e, paradoxalmente, família grande - no fim das contas todo mundo acaba dando ‘umazinha’) e, a primeira ‘conversa’ lógica que pretendiam ter, daquele lado das ‘brancuras’ era sobre a vida... Só pra começar.

- Você demorou, seu velho feio – perguntou Euclides num tom de retórica.
- Foi você que venho muito cedo – respondeu Arlindo, abrindo um largo sorriso -, compadre Euclides.
- Pois você sabe – replicou Euclides -, perdi a ‘minha véia’ e fiquei solitário. Ainda tinha uma penca de filhos, mas todos bem grandinhos... Maduros, já não sei – fez uma pausa. – Tava levando minha vida, mas adoeci de repente... Vai saber.
- É triste – disse Arlindo -, mas pelo menos você tem a companhia da tua ‘patroa’ por aqui... Eu vim antes da minha, e olha que aquela lá vivia reclamando que tava com dor em tudo! – Deu uma risada sem graça. – Mas, me diga compadre Euclides; Que mal que te acometeu tão jovem?
- Câncer... – Disse tristemente.
- Mas veja só – replicou Arlindo -, em mim também foi isso. Foi nos pulmões, fiquei uns dois anos brigando com a coisa, mas não teve jeito... Eu fumava... Até que durei.
- Eu nunca fumei compadre – disse Euclides – e morri de câncer de estomago! Não sei o que fiz de errado... Sentia-me só, é claro, mas queria ter vivido mais; Ter visto meus bisnetos talvez.
- Euclides, compadre – disse Arlindo. – não fique bravo com o que eu vou lhe falar, mas eu suspeito do que pode ter feito mal à tua saúde.
- Então me diga, por favor – Exigiu Euclides.
- Olha – disse Arlindo rançosamente -, desde que eu me lembro, você tinha o costume exagerado de comer castanhas... Acho que pode ter sido isso.
- Castanhas? – Se perguntou Euclides.
- É compadre – disse Arlindo. – Na vida era um pouco de tudo só que moderadamente.
Euclides riu e pensou nos filhos, netos e bisnetos (que não conhecia).Arlindo riu também, pensou na ‘véia’ e numa tabacaria. Será que haveria alguma por lá?





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