quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pandemia Avulsa

Homens...
Interditem as estradas mal criadas e esburacadas
Interditem os hospitais lotados e mal administrados
Interditem as igrejas pelo excesso de contingente
Interditem as férias por falta de dinheiro
Interditem a fraternidade pela falta de solidariedade
Interditem os céus pela falta do azul
Interditem as artes pelo excesso de retoques grotescos
Interditem as músicas que estão se desafinando pela nostalgia
Interditem a esperança que se encontra cansada e tão usada

Homens...
Fechem suas portas para o sem teto que precisa de comida
Fechem seus corpos para o delírio da vida
Fechem seus cofres e se esqueçam da combinação
Fechem seus olhos e se deitem no chão

Homens...
Não olhem para o passado e sintam-se culpados
Não chorem ao terem certeza de que são
Não procurem mais respostas para explicar o que não tem explicação
Não acreditem apenas na sorte
Não duvidem de um juízo final esculpido por suas próprias mãos

Orem...
Sintam-se culpados pelo agora e pelo amanhã
Sintam-se acompanhados pelos deuses que inventaram
Sintam-se tão sozinhos como o corcunda de Notre Dame
Sintam-se invejados pelo próprio sorriso no espelho quebrado

Vejam...
O final vem estampado no mastro da bandeira
O final é autoconfiante e indestrutível
O final é o último suspiro, choro, tosse e aceleração
O final é a primordial aceitação

Antes de tudo,
Homens...
Caiam no vazio pessoal, evitem a implosão
Arrumem suas malas, assistam ao filme predileto e escutem a uma última canção...
Depois disso...
O silêncio eterno será a maior invenção
Feita para nós, dada a nós
A pandemia avulsa de nossa criação.

#1
Não existem maiores problemas, apenas o asfalto
Não existe mais a verdade, apenas metáforas
Não existem mais amores, são sabores dos corpos
Não existe lucidez, todos estão loucos
Não existe pandemia, é só mania de controle
Não existe paraíso, criamos o inferno
Não existe calma, sonhamos acordados
Não existe mais a compaixão, criamos espelhos
Não existe mais a solidariedade, contamos o dinheiro
Não existem mais vocações, viramos escravos
Não existe o existir, coexistimos no vazio
Não existe pátria, arrendaram nossas casas
Não existe lar, o operário usa o teto pra dormir.

Viramos a crença de um sonho utópico
Viramos carrascos de oportunidades
Viramos sujeitos sujos de modernidade
Viramos esqueletos partidos
Viramos o mundo e o perdemos.

Estamos à caça de matérias
Estamos sempre na fila de espera
Estamos sobrepujados por um sistema
Estamos longe do que deveríamos ser
Estamos procurando drogas e heróis.

Ascendemos nossos cigarros
Ascenderemos a nossos transcendentes
Acrescentaremos uma palavra de despedida
Ajuizadamente abriremos as feridas
Apressadamente tomaremos fertilizantes de bebidas
Apresentaremos uma ata em branco no dia em que deus sorrir.

Sós - Nós – Não – Desataremos - Nós.
Juntos –Nós –Não – Saberemos - Ser.

Apenas nosso final será lembrado
O nascer enterrado
E vivo
Sem memória
Existirá.

#2
Tente ser um porco engravatado...
Diga olá à miss universo
Compadeça seus problemas no senso
Envergonhe sua mãe ao nascer
Compre um carrinho de brinquedo
Pratique homenagem a Antoine com travesseiros
Goze na porra da tua liberdade!

Na divisão de um conjunto safado...
Tente receber o mesmo salário que o do seu vizinho
Acredite que seus filhos terão o mesmo conforto
Viaje para longe, todo ano, sem se drogar
Sorria branco de etiqueta e carniça
Aprenda a ser o que não é
Abuse do segundo que se passa agora!

Seja fiel ao destino
Pense como um paraninfo
Lembre de sua avó
Tenha consciência de que irá para o mesmo lugar,
Em tempos modernos... Será desprezado como despreza.
A ironia será toda sua ao perceber novas versões de canções juvenis!

O Maior teimoso sempre será o tempo:
Ele mata,
Ele acalma,
Ele desmembra...
Verte na esperança afagada pelas súplicas
Manter-se-á eterno pela necessidade coletiva,
Mesmo que teu buraco se cave amanhã!

#3
Realidade sem vergonha
Conquista com desprezo
Susto sem coma
Pesadelo em veto

Ganhamos do ego uma apatia
Do vício um câncer
De toda dedicação cansaço
De várias vontades frustrações
De meia hora pedaços...

Já não é mais apenas orgulho ferido
São excessos de fugas por labirintos
Insistimos em pensar baixinho
Não nos eternizaremos sozinhos.

ISBN:85-909374-4-9

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