segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Conto #5

Nota do autor

Não preciso dizer que horas são, pois imagino que a sensatez faça parte da mente e alma dos leitores que por dedução saibam que já é bem ‘tarde da noite’.
Também não sei ritmar esse processo de escrita a ponto de que eu afirme com grande chance de acerto o desenrolar da trama e, até seu próprio final; porque estou sentindo uma inspiração artificial, que está sendo tomada por uma sonolência artificial; nada fora do comum pra quem toma Valium e Seroquel.
Afirmo apenas, que a minha intenção é escrever uma pequena história que diz muito (pausa pra um cigarro) pra meu ego pessoal e, quem sabe seja interessante pra alguém com imaginação o suficiente pra entender a solidão nas mais simples palavras. Não é uma história pessoal, mas a vejo como se transmitisse realidade através dos flancos. É extremamente superficial, mas o aprofundamento acerca da personalidade do personagem vai variar conforme o espírito de cada leitor.
Assim, excluindo a necessidade – que é o dom carrasco da humanidade – de divisões por ser apenas mais uma das idéias pertinentes em minha cabeça; começa:


"O dia feliz"

Ele caminha noite adentro de cabeça baixa e sabe que ninguém jamais pode ser persuadido ao delírio da vida contemporânea. Apenas entende que as árvores crescem mesmo que as folhas caiam e, mesmo que a razão de tudo estar uma merda seja um enigma tosco da sorte; a vida continua.
Seu cansaço iluminado transparece e, seu nome Frances tem tão pouca importância pra um indiano quanto teria pra um americano. Olha para o relógio e vê que já se passam das vinte e duas horas, percebe que já perdeu muito tempo de sua vida, mas que a mudança depende, primeiramente, de uma atitude a qual não se submete por não saber qual é. Pensa que deveria mudar seu nome para cansaço, mas a indiferença se sentiria rejeitada. Ri de si mesmo e continua a caminhar pelas ruas escuras da velha cidade que um dia fora nova e cheia de perspectiva. Transparece o medo, olhando pra trás sempre que o sente; sem esperança (*pausa pra um cigarro).
Na altura da rua mais iluminada vê um cachorro e lembra-se que é meio fóbico a cães. Pensa em mudar o percurso e andar uma quadra a mais, mas está tão cabisbaixo que prevê que o vira-lata nem irá repará-lo (*Agora o sono seroquense me faz mais sentido do que qualquer outra coisa, e ainda tenho coisas a fazer – maldito citalopram ineficaz -, amanhã eu continuo). Mas ele repara que o cachorro o olha com o mesmo olhar que o dele; algo entre a tristeza e a desesperança de não saber o que acontece com todas as pessoas que sempre tem algo a dizer. Assim, diz pra si mesmo que o cão deve ser um amigo, ou ele mesmo pedindo perdão por ser um humano-cachorro no sentido figurado e real. Não sabe.
Atravessa a rua iluminada e deixa sua companhia peluda e pulguenta para trás. Traz consigo a sensação de que escapou por pouco de ser mordido, mas sabe que é uma pessoa muito dramática e que talvez, o cachorro fosse menor do que aparentava ser e que, um baita dum chute na cabeça de qualquer bicho que não fosse um leão, resolveria o problema. O cão já não mais lhe parece um amigo que ficou pra trás e, não consegue memorizar a sensação que a pouco tivera em relação ao canino; sente-se de novo só.
Noite adentro e ruas adiante, o rapaz continua sua jornada em direção a própria casa – algo extremamente difícil nos dias de hoje com tantos animais selvagens soltos pelas ruas das grandes e pequenas cidades -, traz consigo uma sacola com pães e, nos bolsos um pouco de erva da boa que conseguira de um amigo doidão. Pretende fumar o troço quando chegar a casa, pra dar uma relaxada e dormir melhor, mas antes ainda, pretende dar uma passada no bar da esquina, pra dar uma acendida no espírito primeiro e, quem sabe, arrumar uma treta com um armário dois por dois e conseguir uns dias de folga do trabalho.
Mas não foi isso que aconteceu naquela noite.
O bar estava calmo. Parecia que acabara de haver um chá de bebê no local ou uma reunião de velinhas motoqueiras que gostam de Ozzy Osbourne. Não havia nenhum conhecido por ali, amigo ou inimigo. Parecia um complô a favor da solidão, mas ficar só era algo que ele já estava completamente acostumado.
Resolveu continuar em rumo a sua casa.
Noite adentro, e a poucos quarteirões, bateu a absoluta vontade de fumar a erva que trazia consigo no bolso. Pensou: “estou só, vou ‘apertando’. Quando eu chegar a casa já estarei legal pra dar uma viajada e curtir um Pink Floyd ou Radiohead, ou os dois.” (*Escrevo este final provisório para o Blog, mais de três anos depois de iniciar a história) Mas cada pequeno passo nessa vida já se descreve por si só progressivo; de mente aberta e hedônica...Um, dois, um e dois...
Três: um tiro certeiro.
A mente dele passou a liberar endorfina, adrenalina e outros compostos radicais de sabores exacerbados – antes usados em pequenas doses. Aquilo era uma viagem psicotrópica naturalista (balística); a morte cheirava a orgasmo, mantra e Nirvana... E foi o mais breve momento da eternidade que teve o trivial fim.
Sem drogas; sem o insucesso da mente turva: o rapaz viveu o dia mais feliz de sua vida. É, e foi o lapso de sua morte.

A.A>

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